Memória e verdade

Como o Cemitério dos Aflitos prova o passado indígena e negro da Liberdade

Importante espaço de memória da cidade, ele revela, por meio de achados arqueológicos e mobilização social, memórias e saberes tradicionais soterrados pelo crescimento urbano

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Um cemitério no coração de São Paulo

O Cemitério dos Aflitos foi fundado em 3 de outubro de 1775, por iniciativa de Dom Frei Manoel da Ressurreição, então bispo de São Paulo, constituindo-se como o primeiro cemitério público da Capitania de São Paulo. Em funcionamento por 83 anos, até seu fechamento em 1858, o cemitério recebeu majoritariamente os corpos de pessoas africanas e indígenas escravizadas, libertas e seus descendentes.

Com o loteamento da área ao longo do século XIX, imóveis foram construídos sobre o antigo campo santo sem que os corpos fossem transladados, fazendo com que as pessoas sepultadas ali permanecessem naquele solo. Em 2025, o Cemitério dos Aflitos completou 250 anos de existência, reafirmando sua centralidade para a compreensão da escravidão, do tráfico transatlântico e da formação social de São Paulo.

Atualmente, o perímetro histórico do antigo cemitério é delimitado pelas ruas Galvão Bueno, dos Estudantes, da Glória e pela R. Américo de Campos, estendendo-se até a área onde hoje se localiza o 1º Distrito Policial de São Paulo.

Mapa do perímetro histórico do Cemitério dos Aflitos

Mobilização social e reconhecimento arqueológico

A defesa desse território foi protagonizada por pessoas devotas, frequentadoras da Capela dos Aflitos e pesquisadoras, cuja mobilização resultou na criação da UNAMCA – União dos Amigos da Capela dos Aflitos, entidade da sociedade civil dedicada à proteção do patrimônio cultural associado ao local.

A UNAMCA denunciou intervenções promovidas por um empreendimento comercial privado que impactavam a estrutura da lateral direita da Capela dos Aflitos — bem tombado em âmbito municipal e estadual — e a ausência de acompanhamento arqueológico, apesar de a área já ser reconhecida como sensível do ponto de vista patrimonial, conforme a Resolução nº 25/CONPRESP/2018.

Como resultado direto dessa mobilização, as obras foram paralisadas e teve início o monitoramento arqueológico, culminando na identificação oficial do Sítio Arqueológico Cemitério dos Aflitos, cadastrado em 2019 pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Achados arqueológicos e ancestralidade

Durante o monitoramento arqueológico em dezembro de 2018, foram identificados nove remanescentes ósseos humanos, associados a sepultamentos realizados no antigo cemitério. Esses achados foram registrados no Relatório Final do Programa de Gestão Arqueológica no Terreno Localizado à Rua dos Aflitos, nº 64 – Liberdade, elaborado pela empresa A Lasca Arqueologia (2019).

As análises indicaram patologias dentárias significativas e desgastes compatíveis com o uso da boca como instrumento funcional, prática recorrente entre populações submetidas ao trabalho forçado. Também foram encontradas quatro contas de vidro azul escuro, associadas a um sepultamento, possivelmente vinculadas a referências cosmológicas tradicionais de matrizes africanas, relacionadas ao culto do orixá Ogum (tradições alaketu e efon), ao nkisi Nkosi (tradições Kongo-Angola) ou ao vodun Gu (tradições jeje). Esses elementos indicam a permanência de saberes tradicionais africanos e práticas culturais ancestrais no contexto funerário na cidade de São Paulo e no Brasil.

Fotografia de um documento manuscrito antigo, com caligrafia cursiva em tinta marrom sobre papel amarelado pelo tempo. O texto principal registra o falecimento de Francizca India em vinte e oito de setembro de mil setecentos e noventa e dois.
Registro de óbito de Francizca Índia (Acervo do Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo)

Registros documentais da escravidão

Fontes documentais primárias, como os Livros de Óbitos da Sé, preservados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, confirmam o uso do Cemitério dos Aflitos para sepultamentos de pessoas africanas e indígenas e suas descendentes escravizadas e libertas. Entre os registros, destaca-se o assento de Francizca Índia, da Aldeia de São José, criança indígena nascida em condição de escravidão, sepultada no local em 1792. Também foram identificados registros de sepultamentos de Domingos, Gentio da Guiné; Ignacio, denominado criolo; João, da Nação Mina; e Clemente, natural da Ilha de São Sebastião, entre outros.

A Capela dos Aflitos: memória presente na paisagem da cidade 

Único remanescente material visível do antigo Cemitério dos Aflitos na paisagem urbana paulistana, a Capela dos Aflitos foi edificada em 1779. Construída como capela do cemitério, sua finalidade era sagrar o campo santo, servir como espaço de oração para os familiares dos sepultados, promover a devoção às Almas dos Aflitos, a devoção católica de Nossa Senhora dos Aflitos e sustentar os cultos aos ancestrais.

A Capela permanece até hoje como importante centro de devoção católico, devotado a Nossa Senhora dos Aflitos. Além disso, também é um local de culto popular, especialmente associada ao culto às santas almas e a Chaguinhas. Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, foi um soldado negro enforcado em 1821 no Largo da Forca (atual Praça Liberdade-África-Japão) e sepultado no Cemitério dos Aflitos, também conhecido como Cemitério dos Enforcados. O rompimento da corda de seu enforcamento por diversas vezes foi considerado um milagre, o que o fez ser considerado um santo popular.

Fotografia antiga da fachada da Capela dos Aflitos
A fachada da Capela dos Aflitos (Herman Graeser/Iphan, 1939)

Restauro, novas descobertas e diálogo intercultural

Durante as obras de restauro da Capela dos Aflitos em 2025, foram identificados novos remanescentes humanos e mobiliários funerários, tanto em contexto de sepultura quanto de forma desassociada diretamente relacionadas às práticas fúnebres de sepultamento de comunidades tradicionais de matrizes africanas e indígenas, bem como da tradição cristã-católica. O reconhecimento desses objetos contou com a presença e contribuição de lideranças tradicionais de matrizes africanas, lideranças religiosas, pesquisadores e representantes de comunidades tradicionais, entre eles: o Pároco da Capela dos Aflitos, Padre Enes de Jesus; o Babalorixá Katy Ty Odé, do Ilê Axé Omon Obá Olooke Ty Efon; o Bokonon Fa Asinan Dotè Gbadessi Lossossi, do Hunkpame Gbade Korodje; Fábio Melo, coordenador responsável pela preservação dos patrimônios culturais materiais do Axé Ilê Obá; Fabrício Forganes, pesquisador e Ègbón de Osogiyan, do Ilè Asé Ègbé L’Ajò Ògún Èrèguedè; a Iyalorixá Zana de Odé, do Ilê Asé Odé Ibualamo; a Iyalorixá Mara de Ogum, do Ilê Asé Omo Ajunsun; a Mam’etu Kutala Diamunganga, do Abassá Oxum e Oxóssi e o Cacique Marcio, liderança tradicional indígena Guarani-Mbya.